Páginas

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Inverso Desimportante


Acordou com o gosto amargo da noite na boca. Rapidamente as lembranças começaram a emergir das profundezas de sua cabeça causando uma dor  insuportável. Seria a lembrança ou a bebida?
Fechou os olhos com força e voltou para o êxtase dos corpos em um movimento frenético e alucinante diante de uma mar de cores no meio da escuridão e da bebida distorcendo seus sentidos e direção.
Até que um corpo atravessou seu campo de visão e se instalou em sua frente, interrompendo seu movimento sem qualquer sincronia.
Não conseguia e nem sequer se lembrava da música que tocava, simplesmente se deixava levar por cada corpo que passava ao seu redor e por mais que quisesse ou se esforçasse, não conseguia de maneira alguma ver o rosto do sujeito ali parado.
Ele a pegou pela mão e a guiou para fora do sufoco dos corpos e a empurrou bruscamente para um canto da parede, pegou no seu rosto e colou desesperadamente seus lábios nos dela. "Ele só pode estar completamente bêbado. Ou é louco mesmo!", pensou ela, mas mesmo assim se deixou levar, afinal, ele havia sido o único que por um lapso de qualquer coisa se interessou por ela. A medida que a intensidade do beijo ia aumentando, as mãos do estranho iam percorrendo todo seu corpo, que respondia com leves espasmos de prazer com cada toque que lhe era dado. Já não haviam mais pessoas ao redor dos dois. Suas mãos percorriam cada milimetro do corpo daquele estranho, que de repente assim como começou o beijo, parou. Disse que caso quisesse levar isso a diante, teriam que ir para um reservado. Ela só balançou a cabeça, o pegou pela mão e deram o fora de lá.
Ao chegar no reservado, ele abruptamente se virou de costas. Acho que havia se dado conta do que estava realmente fazendo e com quem estava fazendo.
Como poderia ter coragem de pegar uma garota estranha, totalmente desleixada e esquisita que não sabia nem mover seu corpo em um ritmo certo e que tinha o que para oferecer? Beleza? Um corpo bonito e desejável? Sejamos realistas, ela não tinha atributos, nesse caso, apenas sorte.
Ele de repente se voltou para ela e disse que a observava desde que ela havia chegado com alguns amigos na balada, mas que não tinha tido oportunidade de ir se apresentar. Porém quando a viu parada e sozinha, teve certeza que era o momento certo e apesar da hesitação, tudo que pôde fazer quando olhou seu rosto foi beijá-la, beijá-la como se fosse a última vez que pudessem olhar um para os olhos do outro.
"As pessoas gostam de histórias de amor assim", pensou ela. Mas até que ponto poderia ser isso verdade? Se fosse uma brincadeira da parte dele era de extremo mal gosto, afinal, ela não tinha nada para oferecer a um homem daquele.
Seus cabelos eram pretos e curtos, e quando pôde observar seu rosto, um fascínio  enorme tomou conta de seu semblante. Seus olhos eram de um azul muito claro, além de ser os olhos mais misteriosos e cheios de desejo que ela já havia visto em um homem. Mas do que poderia ser?
Seu corpo era esguio e definido, cada parte eram milimetricamente proporcional. Arrepios de prazer e curiosidade foram subindo pelo seu corpo ao imaginar o que ele poderia fazer com ela naqueles exatos dois minutos que se encaravam. Sua intensidade tomava conta do reservado. Nada mais parecia real e tudo a sua volta eram apenas detalhes desimportantes. Tudo estava ficando do avesso quando ele quebrou o silêncio: "Você é linda sabia? Quero você pra mim agora."
Não passou pela sua cabeça uma só lembrança de um dia alguém ter dito isso a ela, e dava pra pensar nesse momento?
O tom aveludado daquela voz já dizia tudo por si só, ele a desejava e precisava dela agora.
E é o que ele iria ter.


Nenhum comentário:

Postar um comentário